13/06/2022 às 16h33min - Atualizada em 13/06/2022 às 19h00min

Cia O Grito estreia a peça Cidade Alúvio em sua sede no Brás

 Sem uma gota cair do céu, a cidade é imundada e cinco personagens conduzem o público por essa história. Espetáculo tem temporada até 29 de junho na Casa Restaura-me.

SALA DA NOTÍCIA maria fernanda teixeira
Felipe Oliveira
A COMPANHIA O GRITO estreia o espetáculo interventivo Cidade Alúvio – a ser apresentado na sede do grupo, a Casa Restaura-me, no Brás, com posterior circulação pela cidade de São Paulo, numa temporada com 32 apresentações. Trata-se da etapa final do projeto de pesquisa contemplado pela 34ª Lei de Fomento ao Teatro, Brás: Memórias e (Des)memórias de uma São Paulo Precária.
 
Com texto de Jhonny Salaberg e direção de Rafaela Carneiro, Cidade Alúvio fará temporada até 29 de junho na sede do grupo. Além de 12 apresentações na Casa Restaura-me, outros espaços culturais, centros de acolhida e instituições de ensino receberão o espetáculo.
 
A Casa Restaura-me é uma instituição social localizada no bairro Brás e atende por dia mais de 400 adultos em situação de vulnerabilidade. O Grito mantém sua sede nesse mesmo espaço, em parceria com a Casa, desde 2015.
 
No espetáculo, cinco trabalhadores do Brás são engolidos por uma enxurrada sem chuva, enquanto acompanham um corpo ser arrastado pela água. O tempo vai sendo moldado à medida que os sonhos são interrompidos. O bairro agora é uma redoma alagada onde as memórias se diluem entre o pretérito e o porvir.
 
Pesquisa e criação – Cidade Alúvio
 
Com dramaturgia de Jhonny Salaberg, a peça reflete os quatro workshops que foram realizados entre os anos de 2021 e 2022. Diz o autor: “Para a construção da dramaturgia, foi preciso observar os passos da Companhia O Grito em relação aos eixos propostos e o que de material cênico surgia dali. Com os ensaios acontecendo na Casa Restaura-me, fundo comercial das ruas-formigueiro do Brás, foi impossível não ser atravessado pelas demandas sociais e negociações capitalistas no trajeto entre estação e sala de ensaio”. Os eixos propostos foram: memórias e desmemórias, sob a ótica do audiotour; precarização do trabalho e teatro épico; fluxo migratório e teatro itinerante; gentrificação e teatro de rua.
 
O espetáculo traz uma cidade aluviada, ou seja, inundada, com cinco trabalhadores submersos. “Cada personagem tem uma perspectiva singular do ocorrido e lutam para sobreviver dentro de uma redoma alagada em meio a demandas atrasadas, sonhos interrompidos e existências apagadas. Para uma dramaturgia que discorre sobre as urgências de um bairro, o recorte territorial é extremamente necessário. Por mais que o Brás seja um polo comercial de identificação imediata, dentro dele há vários universos, que se diferenciam de acordo com a região e os fluxos de pessoas”, conta Jhonny.
 
Como falar de um Brasil que afunda em si mesmo e que assiste sua história e seu povo serem negligenciados e ceifados a cada dia? Como falar de tempos onde desmantelamentos dos direitos básicos da população ocorrem sem respostas e sem justiça? Para o dramaturgo, a escolha foi o realismo fantástico: “A noção e dispositivos de Realismo Fantástico dentro de uma dramaturgia com um conflito extremamente duro e realista foi necessário para dar roupagem aos discursos emergentes”. Por fim, a dramaturgia busca mais questionamentos que respostas, é uma provocação para a percepção do entorno e dos “alagamentos” que vivemos.

Sobre a direção
 
Diretora convidada, Rafaela Carneiro conta: “Nesse projeto, os interesses de pesquisa do grupo têm muito a ver com a minha trajetória de trabalho: no teatro de rua e em espaços não convencionais, na investigação sobre as possíveis formas de relação de uma peça com o público e na pesquisa do teatro político, ligada ao épico brechtiano.”
 
A encenação apresenta cinco figuras, trabalhadoras do Brás, mostradas em cinco instalações cenográficas durante uma itinerância com o público. A proposta é mostrar que os personagens estão em uma tragédia coletiva, mas a vivem de maneira individual. Assim, o público é convidado a ouvir o relato de cada figura dessa história. Em um segundo momento, de atuação mais coletiva, o grupo fala sobre a residência artística no Brás e abre um debate para ouvir a vivência do público sobre os temas da peça.

Sobre o figurino e a música
 
O figurino é marcado pelo jeans, tecido presente no Brás, com lojas exclusivas de venda desse material. A figurinista e aderecista Karine Lopes comenta: “Logo, a cidade, especialmente o Brás, se materializa nos figurinos através desse jeans, da cor cinza do concreto, e nos exageros de embalagens de plásticos encontradas nos adereços. A representação urbana é invadida por tons terrosos, como uma cidade que afunda em sua própria lama, por deslizamento, por enchente, ou por aluvio, "acidentes" não naturais, mas sociais.
 
O samba e o baião estarão presentes em Cidade Alúvio com duas composições originais de Maurício Maas, que, além de dirigir a música, assina a criação da trilha sonora. A música tocada ao vivo tem inspiração no samba paulista, passando por Adoniran Barbosa e Geraldo Filme, e na origem nordestina de conviventes da Casa Restaura-me e moradores do bairro. A luz é ambiente, diurna.
                                                
Investigando um espetáculo interventivo
 
O projeto Brás: memórias e desmemórias de uma São Paulo Precária teve como impulso inicial dar continuidade à residência artística do Grito na Casa Restaura-me e aprofundar a investigação de uma linguagem intitulada pelo grupo de “Teatro interventivo”, que teve início em intervenções artísticas realizadas pelo jardim e em outros espaços da Casa, junto aos conviventes.
Desse modo, Cidade Alúvio, é o primeiro tijolo dentro da construção dessa linguagem que o Grupo pretende seguir investigando. Uma linguagem que se permita porosa para trocas ativas entre público e artísticas. Em julho, o grupo lança, também como fruto desse projeto, uma revista que abordará essa investigação.
 
Sobre o grupo
 
Em setembro de 2015, a Cia O Grito se envolveu com iniciativas públicas para pessoas em situação de vulnerabilidade com a residência artística e transferência da sua sede para a Casa Restaura-me. Sediados no Brás, no segundo andar da instituição, que atende mais de 400 adultos por dia e oferece espaço para alimentação, higiene pessoal e lazer aos seus conviventes, começaram uma pesquisa que buscou materialidades estéticas a partir de tal espaço e suas pessoas. No decorrer da residência na Casa, que completa 7 anos em setembro de 2022, articulou apresentações gratuitas de espetáculos da Cia, de grupos convidados, oficinas, saraus, entre outras atividades artísticas.
 
Ficha Técnica do Espetáculo
 
CIDADE ALÚVIO – De 8 a 29 de junho na Casa Restaura-me. Atuação: Diane Boda, Fúlvio Bicudo, Junia Magi, Samira Pissinatto, Wilson Saraiva. Direção: Rafaela Carneiro. Dramaturgia: Jhonny Salaberg. Direção Musical e Trilha Sonnora: Maurício Maas. Cenografia: Caio Marinho. Assistência de Cenografia: RogérFlaví. Figurinos e Adereços: Karine Lopes. Pintura Artística de Figurino: Jefferson Aquino e Karine Lopes. Assistência de Figurino: Nayara Rocha e Léo Paz. Costura: Be(l)a Costura. Contrarregragem: João Veras de Carvalho e Maurício Caetano. Técnico de Som: Raul Lacerda. Fotografia: Fellipe Oliveira. Assessoria de Imprensa: Arteplural Comunicação. Direção de Produção: Palipalan Arte e Cultura. Produção Executiva: Thatiana Moraes. Produção Artística: Companhia O Grito.
 
“Este projeto foi realizado com apoio do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo – Secretaria Municipal de Cultura"
 
Serviço - GRATUITO
Casa Restaura-me -Rua Monsenhor de Andrade, 746 – Brás
Sessões: 08, 09, 11, 15, 16, 18, 19, 21, 22, 23, 25, 29/06, sempre às 10h.
 
Após temporada na Casa Restaura-me, o espetáculo realizará mais 20 apresentações em espaços culturais, centros de acolhidas e intuições de ensino na cidade de São Paulo. Para saber mais, acesse as redes sociais @companhiaogrito
 
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