01/08/2019 às 09h18min - Atualizada em 01/08/2019 às 09h21min

É necessário conversar mais sobre bullying

É necessário observar, também, as brincadeiras mascaradas de bullying – termo originário da língua inglesa (bully, que significa “valentão”) – que se refere a todas as atitudes agressivas - verbais ou físicas -, intencionais e repetitivas que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos.

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Mais do que uma época mágica, a infância é o período em que se é aprendido os valores que guiarão durante toda a vida adulta. Fala-se de uma fase de descobertas, que vão, aos poucos, moldando as pessoas enquanto seres únicos. É neste contexto que o ambiente escolar precisa ser visto como um espaço fundamental para auxiliar na formação de novas pessoas.

A escola é um ambiente de transformação e aprendizado. É neste espaço que muitas crianças têm seus primeiros contatos com a sociedade, na qual elas precisam aprender a lidar com regras e com o convívio comum. Vale ressaltar que cada experiência - dentro e fora das salas de aula - tem um papel importante na formação da personalidade dos pequenos e que cada criança reage a sua maneira a cada uma dessas novidades.

Com isso, precisa-se estar atento ao dia a dia, às pequenas mudanças de humor ou comportamento. É necessário observar, também, as brincadeiras mascaradas de bullying - termo originário da língua inglesa (bully, que significa "valentão") - que se refere a todas as atitudes agressivas - verbais ou físicas -, intencionais e repetitivas que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos.

O bullying, evidentemente, sempre existiu. Tanto é que a primeira menção a esse termo data ainda dos anos 1970, quando Dan Olweus, um professor da Universidade da Noruega, começou a estudar as tendências suicidas entre adolescentes. O pesquisador constatou que, na maioria dos casos, os jovens suicidas haviam sofrido algum tipo de ameaça. Embora essa seja uma preocupação antiga, no entanto, é preciso deixar claro que o bullying, como nós conhecemos hoje, mudou sua forma e cresceu com a influência da tecnologia. Com o acesso à Internet e os meios eletrônicos se tornando onipresentes na vida das pessoas (e não só dos alunos), as "brincadeiras" ofensivas foram tomando proporções ainda maiores.

Como educadores e pais, é importante estar atentos ao que é colocado como padrão para as crianças. Buscando conscientizá-las de que todas as pessoas são diferentes e únicas e, o mais importante, que é preciso respeitar o que é diferente de nós. O bullying pode afetar uma criança de maneira intensa, já que ela ainda não tem uma defesa psíquica sólida e está em fase de desenvolvimento da própria autoestima. Além do mais, há ainda uma questão: a criança que pratica esse tipo de ato reproduz um comportamento que irá acompanhá-lo no decorrer da vida, tornando-se um adulto passível de preconceitos.

Um dos nossos papéis como cidadão é cuidar uns dos outros. Mas como é possível fazer isso diante de "brincadeiras"? O bullying é combatido com amor - seja ele o amor-próprio ou o sentimento ao próximo, que nada mais é do que oferecer respeito e empatia. Deve-se ensinar as crianças o quão importante é colocar-se ao lado do outro e imaginar como aquilo te faz sentir se estivesse inserido naquela realidade.

Adultos, muitas vezes, esquecem-se de reduzir a velocidade do dia a dia para dar atenção às pessoas que rodeiam: seja um bom dia para o porteiro do prédio ou um obrigado para o vizinho que segura o elevador para você. Mas é preciso parar e olhar, porque as crianças estão observando e irão reproduzir esses comportamentos.

Outro ponto bastante delicado é entender que a criança que pratica o bullying, muitas vezes, está apenas se defendendo, tentando mascarar algo que sente. Vale lembrar aqui que a criança ainda está no processo de formação psíquica e este é um processo em que as inseguranças e a autoestima ainda precisam ser trabalhadas com bastante cuidado e atenção. A função preventiva deve estar na família, na escola, no Estado e nos grupos de amizade. Os pais devem se empenhar em observar e participar do dia a dia dos filhos, demonstrando não só uma preocupação natural, mas trabalhando as emoções da criança, inclusive questionando como ela se sente frente a algo que lhe incomoda, por exemplo.

Na escola, é fundamental promovermos assembleias e conversas que levem sempre a um caminho de solução. A posição da escola é propor e estimular ações, em parceria com os estudantes, para discutir democraticamente o assunto, de forma que todos estejam cientes dos danos emocionais gerados ao próximo e das possíveis consequências legais de nossos atos. Além disso, as dinâmicas, oficinas, palestras e atividades extras são essenciais para que as crianças e os jovens conversem sobre suas emoções e para que também compreendam as reações do outro, entendendo as diferenças como parte de suas próprias relações com o mundo.

A lição, contudo, não fica restrita ao contexto escolar. Também devemos valorizar a discussão sobre o bullying em casa, como uma forma de prevenção. Usar literatura de qualidade é uma alternativa interessante para iniciar esse processo. Os livros provocam uma viagem de emoções e um transporte ao lugar do outro. Em um livro sobre o tema, intitulado "Bullying não é amor", retrato uma pessoa coberta de "plaquinhas" taxativas, que definem de forma agressiva suas características. Que tal, então, propor o fim dessas plaquinhas e a aceitação da pessoa por quem ela realmente é? O apoio do círculo social é imprescindível para que esse processo de identificação ocorra de forma permanente. Os seres humanos são maravilhosos exatamente da forma como foram concebidos - e respeitar a individualidade de cada um é uma trilha fundamental para um mundo melhor.

*Por Silmara Casadei, Diretora Geral Pedagógica e Educacional do Colégio Visconde de Porto Seguro e autora de mais de 30 livros educacionais



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