14/10/2019 às 18h13min - Atualizada em 15/10/2019 às 00h00min

Código de Cores para cegos e deficientes visuais: o projeto que ajuda deficientes a se vestirem sozinhos

Projeto com cunho social ajuda cegos e deficientes visuais na identificação das cores através do tato, de modo simples e lúdico, proporcionando autonomia, aumentando a autoestima e a qualidade de vida.

DINO
http://www.seecolor.com.br
Simulação do código em produtos


A maioria das pessoas não precisa fazer nenhum esforço para realizar as atividades mais simples do dia a dia, como escolher e identificar a cor da roupa que quer usar e vesti-la com tranquilidade. A ação é automática, não tem segredo. Em alguns segundos, as peças que compõem o ‘look’ já estão no corpo, prontas para servir como uma forma de identidade diante do olhar dos outros.

Para as pessoas com deficiência visual a história é diferente. Quem não consegue enxergar geralmente necessita da ajuda constante de um familiar ou cuidador para a simples tarefa de separar a calça ou a camisa da cor que gostaria de usar. Afinal, como os cegos sabem que uma roupa é vermelha e a outra é azul? Como eles têm certeza que estão sendo vestidos do jeito que querem?

Quem se debruçou sobre essas questões foi a Dra. Sandra Wt Marchi, do curso de Pós-graduação de Engenharia Mecânica da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ela desenvolveu um sistema de código de cores tátil, o ‘SEE COLOR’, que tem o objetivo de auxiliar os deficientes visuais a identificarem as cores em diferentes objetos do cotidiano, desde esmaltes, batons, sapatos, tecidos, embalagens, material didático, etc. O projeto foi orientado pelos professores Dr. Ramón Sigifredo Cortés Paredes, Dra. Maria Lúcia Leite Ribeiro Okimoto e Dr. Milton José Cinelli.

Graduada em Artes Plásticas pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Sandra veio para a capital paranaense para fazer mestrado e doutorado e se aprofundar nos estudos sobre as cores. "Em Curitiba eu comecei a pesquisar sobre Tecnologia Assistiva, que é aquela que contribue para proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com deficiência e, consequentemente, promover vida independente e inclusão", conta.

O primeiro sistema que veio à mente foi o braille, sendo a principal linguagem tátil utilizada pelos cegos. Segundo Sandra, o problema, no entanto, é que essa linguagem é bastante extensa. Para escrever ‘amarelo’ em braille na etiqueta de uma roupa, por exemplo, fica muito longo. "Eu percebi que teria que ser algo tátil, fácil de memorização e com dimensões bem pequenas. Vi que já existiam tentativas pelo mundo de se criar códigos para cores, mas que não foram eficazes. Desta forma, a ideia era criar algo pequeno, mas que fosse perceptível ao tato, para que pudesse estar em qualquer objeto, do menor ao maior, e que o cego pudesse compreender facilmente".

Reconhecendo as cores com o tato

Sandra criou um sistema de triângulos cromáticos em madeira, com as três cores primárias: vermelho, azul e amarelo. "O cego faz a leitura do código com as mãos e é bem simples de aprender. Basta imaginar um relógio, seu eixo central e um ponteiro. Se ele está apontando para 12 h é o vermelho, para 04 h é o azul e para 08 h o amarelo. A pessoa só precisa fazer um mapa mental da disposição das cores primárias neste triângulo", explica.
Foi construído um segundo triângulo feito de madeira, onde é possível encaixar, também, as cores secundárias, entre as primárias. "Assim, o usuário consegue ter a noção da formação das cores através das misturas entre si. Além disso, o preto e o branco estão em uma estrutura separada do triângulo, ficando o branco do lado direito o preto para o lado esquerdo, respectivamente".

A partir daí, é só aplicar o código nos objetos, usando de molde vazado e de tinta em relevo. "O próprio usuário pode customizar as suas roupas ou outros pertences sozinho. A ideia é justamente a independência. Um cego não precisar depender de ninguém mais para fazer as coisas mais simples, como escolher o que vestir. Assim, ao sentir autossuficiência, empoderamento, aumenta sua autoestima", avalia Sandra.

É fácil de memorizar

De acordo com a doutora, as pesquisas mostraram que o processo de aprendizagem do código é muito rápido. "Nós fizemos uma experiência com um grupo de 20 usuários. O que vimos é que tanto as pessoas cegas quanto as pessoas de visão normal memorizaram o sistema em 20 minutos em média, já que apenas é preciso gravar a posição das cores. Eu mesma fiquei surpresa com o resultado rápido, porque achei que levaria alguns dias para que os usuários aprendessem e memorizassem como o sistema funciona".

Como a moda é dinâmica e os produtos não são feitos apenas de cores primárias e secundárias, o jeito foi ir além: hoje, o ‘See Color’ tem um total de 104 cores, sendo, simplesmente a variação das oito cores iniciais.
Fácil de aprender, memorizar e aplicar, o projeto foi tão bem recebido pela comunidade que foi destaque no prêmio Viva Inclusão, organizado pela prefeitura de Curitiba, em dezembro de 2018. A iniciativa homenageia as boas práticas pela igualdade de direitos desenvolvidas na capital paranaense.

"Ter o trabalho reconhecido depois de tantos anos de dedicação é muito gratificante. Diante de um caminho sofrido, saber que o sistema deu certo e gerou bons resultados é maravilhoso", comenta.

E se todo mundo aprendesse?

O próximo passo agora, segundo Sandra, é tornar o código de cores um sistema popular e acessível, com o uso nas escolas e no mercado de modo geral. "Nós estamos conversando para transformar o ‘See Color’ em uma linguagem universal. Normalmente, quando as crianças aprendem sobre as cores é apenas na teoria. Mas esse processo é abstrato e logo é esquecido. Por outro lado, se o aluno manuseia o triângulo, as cores viram algo palpável".
Para ela, todas as crianças podem aprender as cores e como o código funciona, independente de serem ou não deficientes visuais. "Nós queremos colocar os triângulos cromáticos nas escolas como material pedagógico lúdico, para que os alunos aprendam as cores brincando, com um método de inclusão, sem estigmatização da pessoa com deficiência visual. Pois, o estudante cego, com baixa visão ou daltônico aprenderá as cores junto com aqueles que tem visão normal", conclui.



Website: http://www.seecolor.com.br
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