22/04/2019 às 11h50min - Atualizada em 22/04/2019 às 12h12min

Cadastro Positivo será suficiente para reduzir o spread bancário?

Embora muito relevante e positiva para a expansão segura do crédito, a aprovação do Cadastro Positivo não é uma garantia automática de uma queda dos juros e/ou de redução dos spreads bancários

DINO


Estudos do Banco Mundial apontam que aproximadamente 70% de todos os birôs de crédito do mundo fornecem informações tanto negativas quanto positivas - como será possível fazer aqui no Brasil agora que o Cadastro Positivo foi aprovado pelo Senado. As novas regras permitirão a inclusão compulsória ao cadastro para todos os consumidores e empresas, com a possibilidade da solicitação de saída, além da participação de informações e dados de outras indústrias.

Segundo simulações apresentadas no Credit Reporting do Banco Mundial, a inadimplência do crédito cairia de 3,37%, sobre empréstimos concedidos com base apenas informações negativas, para 1,84% de inadimplência para informações negativas e positivas, ou seja, uma redução de 1,53 ponto percentual. Para um banco com aproximadamente US$ 100 milhões de carteira de crédito, a redução representaria ganho de US$ 1,53 milhão.

Embora muito relevante e positiva para a expansão segura do crédito, a aprovação do Cadastro Positivo não é uma garantia automática de uma queda dos juros e/ou de redução dos spreads bancários - a diferença entre a remuneração que o banco paga ao aplicador para captar um recurso e o quanto esse banco cobra para emprestar o mesmo dinheiro.
Seu uso vai surtir um efeito benéfico somente se o sistema bancário o empregar e usar da forma apropriada, o que dependerá da estratégia e da capacidade de adaptação/inovação das instituições financeiras no sentido de utilizar a ferramenta para derrubar o spread bancário. Para tanto, as ofertas terão que ser individualizadas e as instituições precisariam adequar suas ofertas ao perfil de cada um dos consumidores.

Essa mudança representará um desafio para as instituições mais tradicionais. É daí que surgem as dúvidas se o resultado será a queda do spread bancário, pois embora o sistema financeiro já disponha de várias ferramentas para identificar o perfil do tomador de crédito, essas soluções não são utilizadas hoje para reduzir a taxa de juros. Na prática, servem para garantir a concessão de crédito, o que leva o bom pagador para a vala comum no que se refere aos juros. Mas as novas tecnologias, como Big Data e Inteligência Artificial, também inserem milhões de pessoas no mercado de crédito, com a segurança derivada da identificação de milhares de variáveis, que apontam tendências, hábitos e preferências.

Portanto, é imprescindível que as empresas continuem ampliando seus investimentos em análise de dados. Quem não investir vai ficar para trás, e o Cadastro Positivo acabará por resultar em redução do spread, somente no caso das instituições que se adaptarem ou aquelas que já nascerem nesta nova realidade, como as fintechs de crédito. Ao oferecerem uma análise de crédito mais completa, elas se capacitam a trabalhar com juros variáveis, personalizados, em vez das taxas homogêneas definidas por tipo de empréstimo ou linha de crédito que o sistema bancário vem praticando há centenas de anos.

Domingos Monteiro é CEO da Neurotech, pioneira em Inteligência Artificial no país

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